quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O senhor Buster não sabe é de nada



OLHE AQUI, MR. BUSTER...*

*Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, E.U.A. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explicação que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione.

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma
casa em Beverly Hills.

Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Parthenon, e no quintal
de sua casa em Hollywood

Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar di-
nheiro e de noite para lhe dar insônia.

Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar
o seu preconceito racial

Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marylin Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto
tanto dinheiro em vão na guerra da Coréia.

Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosa-
mente de torradeiras automáticas

E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está mui-
to certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem
filmes de mocinho

Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fa-
bulosa hi-fi

Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclu-
sive nos banheiros.

Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez
por mês por Elsa Maxwell

E tenha dois psiquiatras: um em Nova Iorque, outro em
Los Angeles, para as duas "estações" do ano.

Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acaba-
rá governador do seu Estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de pe-
tróleo, aço e consciências enlatadas.

Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

Vinicius de Moraes, do livro Para viver um grande amor

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ele existe

E é bem mais humano e solidário do que o da coca-cola.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um herói do nosso tempo





Inteiro lindo. Na última cena os pêlos do nariz, orelha e resto do corpo arrepiaram, e eu estarrecido, pensava em voltar a vê-la enquanto os créditos subiam. Não tive coragem.

domingo, 21 de novembro de 2010

Naaaa naaaa na nananaaaa

E eu que não sou fanático pelos Beatles mas gosto bastante, recebi agora pouco essa mensagem do Bola que está agora mesmo lá no show:
Porco, tô no show do Paul. Ele acabou de cantar uma música pro John. Me emocionei e lembrei de você, meu melhor amigo. Você é foda. Te amo porco de merda.

E como se a mensagem não fosse suficiente ele e a Aninha ligam dez minutos depois pra me deixar ouvindo a galera cantando Hey Jude junto do Paul, logo o som que eu mais piro dos Beatles. Sensacional porco, também te amo, e não é pouco não hein.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Roteiro

Igual o dia que tirei o meu fone esquerdo do teu ouvido ao perceber que você já dormia. Tocava Coldplay. Agora pouco meu pai abriu a porta do quarto e disse de sorriso largo que a mãe fez arroz doce, mas que não é pro meu bico. Dei risada, e tive a mesma sensação daquele dia.
Vez ou outra Deus dá a chance de nós assistirmos o nascimento da memória eterna, meio como quem diz: - Você sabe que nunca mais irá esquecer isso, né?
E afirmando com a cabeça e cara de bobo, a gente concorda.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Verdades

O fato de outros discordarem de nós (não prezarem o que prezamos, e prezarem justamente o contrário; acreditarem que o convívio humano possa beneficiar-se de regras diferentes daquelas que consideramos superiores; acima de tudo, duvidarem de que temos acesso a uma linha direta com a verdade absoluta, e também de que sabemos com certeza onde uma discussão deve terminar antes mesmo de ter começado), isso não é um obstáculo no caminho que conduz à comunidade humana. Mas a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são "meras opiniões", esse sim é um obstáculo.

Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, Zygmunt Bauman
Pág. 81

sábado, 6 de novembro de 2010

A triunfal chegada das cores no reino opaco

Há umas duas semanas, vi um senhor de meia idade atravessando a avenida junto da mulher e dos filhos. Devia ser 18h, 18:30 no máximo. Roupa social, deve ter combinado com a esposa de buscar as crianças juntos. Tardezinha quase noite, rosto calmo, serenidade que só tem quem cumpre a palavra, o dever. Naquele instante, ali na calçada, desejei ser aquele senhor. Desejei bem forte pular 30 anos de medo, insegurança, descrença, esforço, suor e mais esforço.
Enquanto virava o pescoço pra continuar observando a família, pensei em você, pensei em nós.
E de cara, assim sem aviso, desejei bem forte ter 27 anos, dívidas, coragem, confiança, esperança, esforço, suor e mais esforço. Só não desejei certeza porquê não se deseja o que já tem.
Eu já tenho amor. Certeza que é você.

Eu te amo.