segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Defender a nova ortografia é defender a presença do Brasil no cenário mundial

Me espanta a falta de criatividade (se é o nome do problema) dos jornalistas quando o assunto é língua. Existem temas e questões cruciais para a compreensão das relações entre língua e sociedade, mas esses profissionais só querem tratar do óbvio. E, para piorar, não lêem o que os colegas publicam, procuram especialistas (ou falsos especialistas, na maioria dos casos) e perguntam as mesmas coisas, para obter as mesmas respostas já impressas e reimpressas.
Sou dos rarissíssimos lingüistas brasileiros que descem da torre de marfim acadêmica e dão a cara a tapa na divulgação científica e na disposição ao debate em terreno leigo (só consigo pensar num único colega que também faz isso, Sírio Possenti, da Unicamp, em suas colunas semanais na internet). Assim, recebo todos os dias pelo menos um pedido de entrevista. E todos só querem saber de três entidades fabulosas: a "reforma" ortográfica (que não existe); o "gerundismo" (também não existe); e a "língua" da internet (que existe tanto quanto a mula-sem-cabeça). As palavras empregadas já indicam a falta de informação de quem faz as perguntas. Com isso, num exercício de paciência que, espero, vai acumular pontos no meu cartão-fidelidade para participar da comunhão dos santos, tento, primeiro, desmontar as perguntas para depois responder. Haja!
Cada dez lusófonos, nove vivem no Brasil
A quantidade de declarações infelizes, quando não burras, mereceria uma investigação sociológica. Por que esses discursos são tão refratários a qualquer racionalidade? Por que pessoas, aparentemente inteligentes, têm coragem de dizer a partir de agora não vamos mais dizer "lingüiça" mas "linghiça", porque o trema foi abolido? Que a supressão do acento em "ideia" vai dificultar saber se a tônica é aberta ou fechada? Ora, não existe acento que diferencie "velha" de "telha", "a corte" e "o corte", "a cerca" e "ele cerca", e no entanto ninguém confunde o grau de abertura das vogais tônicas dessas palavras. Vamos estudar um pouquinho, gente?
Antes de tudo, é preciso bradar aos quatro ventos que não se trata de "reforma", mas de acordo que elimina pequeninas diferenças entre as duas convenções ortográficas que vigoram no mundo de língua portuguesa: a brasileira e a lusitana, que impera em Portugal e demais países ditos lusófonos. Uma reforma implicaria alterações radicais na aparência escrita da língua, como aconteceu em 1945, quando "physica" virou "física", "rhythmo" virou "ritmo". Nada disso está sendo proposto. Apenas alguns acentos deixarão de ser usados, junto com o trema (que, pelo amor de Deus, não é acento!), além de uma regulação do uso do hífen. Com isso, somente 0,5% das palavras escritas em português brasileiro sofrem alguma alteração. É muito pouco para falar de "reforma".
Arruinamos o idioma de Camões. E daí?
Para não repetir o que já foi dito por pessoas mais competentes, remeto os leitores a dois textos primorosos. O primeiro, de José Luiz Fiorin, está em www.marcosbagno.com.br com o título "E agora, Portugal?". O outro, de Carlos Alberto Faraco, está em www.estacaodaluz.org.br (Museu da Língua Portuguesa): "Uma mudança necessária".
Nesses textos, o que se destaca é a análise política que fazem. É essa que deveria interessar aos jornalistas, não as novas regras de acentuação, que se pode aprender em meia hora. Como escreve Faraco, "Portugal transformou a duplicidade de ortografias num instrumento político para embaraçar a presença brasileira seja nas relações com os demais países lusófonos, seja na promoção internacional da língua". É isso mesmo. Muita gente, naquele país desimportante na geopolítica global, teme que o Brasil assuma, de fato e de direito, as rédeas na condução dos destinos da língua portuguesa no mundo, como se não fosse inevitável.
Com o apego à ortografia lá e nos demais países, Portugal impede a livre circulação de material impresso no Brasil, sobretudo livros didáticos e dicionários; não reconhece os diplomas em língua portuguesa que expedimos; exige que organismos internacionais publiquem seus documentos segundo as normas instituídas por lá etc. Uma política lingüística tacanha, que tenta encobrir o sol brasileiro com a peneira da ortografia lusa.
No Brasil vivem 90% dos falantes de português. O português brasileiro (e não simplesmente "o português") é a terceira língua mais falada no Ocidente (depois do espanhol e do inglês). Se todos os habitantes de Portugal e dos outros países lusófonos (que de lusófonos não têm nada: neles só uma minoria fala português) deixassem de usar a língua, ainda assim essa posição do não se alteraria.
Defender a validade e a necessidade do acordo ortográfico é defender a importância do Brasil e do português brasileiro no cenário mundial. É conferir auto-estima a um povo que há meio milênio, vem sendo acusado de "arruinar" o "idioma de Camões". Arruinamos mesmo, pronto, e daí? Mas é sobre essas ruínas que estamos erguendo uma língua surpreendente, que deixa os lingüistas fascinados com as inovações sintáticas que estamos introduzindo, uma língua que é a cara do nosso povo, como têm que ser (e de fato são) todas as línguas do mundo.

Marcos Bagno é lingüista.
Caros Amigos, n.140, Novembro, 2008.

9 comentários:

Marcela Prado disse...

Pronto, baixou o encontro do preto véio de esquerda de novo.

Eduardo Machado Santinon disse...

Oiá a palhaçada hein...rs

Bola, o André disse...

Porco, concordo com mudanças desde que o significado e a utilidade da mudança fiquem claros.... se alguém puder me explicar de forma simples e sem rodeios, e sem demagogia política eu aceito...caso contrário vou continuar com a pulga atrás da orelha... e não é só com a questão linguistica (sem trema), em qualquer outra circunstância também...
Abraço Porco!!!! (Preto véio de esquerda foi foda hein,heheheheheh)

Juliana Cruz disse...

eu sou contra. primeiro que o argumento de unificação é super furado, afinal, não são acentos que vão tornar única uma língua presente em nove países. não se trata da grafia, mas do sentido das palavras. aquela piada de pica dura ser obsceno aqui e injeção em portugal é a forma mais obvia de exemplificar isso.

e sim, nós sabemos como pronunciar as palavras, mas quero ver vc explicar a uma criança que está aprendendo a ler agora a diferença entre o verbo parar no imperativo e o pronome para.

pode trazer o pasquale pra defender essa bobeira toda, vou continuar achando tudo uma bosta inútil criada pra trazer mais gastos para o já ridiculo ensino medio, logo, mais uma possibilidade de desvio de verba.

.lucas guedes disse...

como SEMPRE o brazil fazendo alarde com uma coisa tão simples... não sou contra nem a favor, mesmo porque a minha (nossa) opinião pouco importa. como o linguista (antes lingüista?) disse, é um acordo, não uma reforma. não tô nem aí. só queria usar o trema em consequência. é pedir muito? e prefiro 'RYTHMO' a 'ritmo'. acho phyno escrever assim.

.leticia santinon disse...

Se continuar assim, seu exemplar cortesia da Caros Amigos será suspenso.

Rodrigo Artur disse...

Fogos nos colchões. Rebelião já!

Eduardo Machado Santinon disse...

Eu também porco...
Juliana, pra explicar a criança a diferença entre o verbo parar e o pronome para pra mim tem que ser do mesmo jeito de sempre, ensinando, do mesmo jeito que ensinam a pronunciar telha e velha, concordo em quase tudo com você que dá brecha pra nego roubar e o caralho...mas trazer o Pasquale não, ele defende o português do Dom Pedro I.
E Lucão, é isso aí, é só um acordo.
E Lê e Rodrigo, vão tomar no olho do cú.

Luciana Veira disse...

Prefiro a opinião do Marcos Bagno ao Pasquale (Leiam "A língua de Eulália" e "Preconceito Liguístico", do Bagno). Não sei quem foi que disse que esse cara (o Pasquale)sabe alguma coisa da Língua Portuguesa. Os comentários dele devem ser levados a sério tanto quanto aquelas sessões de "certo x errado" das revistas de moda.E as crianças vão aprender a diferença entre um "para" e outro da mesma forma que nós aprendemos a usar "como" (verbo, conjunção, advérbio). E não se trata do SENTIDO das palavras e sim do USO delas. É claro que estão alardeando demais esse acordo e que, sem dúvida, existem outros assuntos mais urgentes.